No dia 15.03 celebramos o Dia da Escola. Talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que a escola ensina, mas porque a escola ainda importa.
Vivemos um tempo em que a inteligência artificial avança rapidamente, em que a sociedade exige alta performance, em que se espera que crianças e jovens sejam preparados para entregar resultados, desenvolver competências, dominar habilidades e alcançar excelência. Em muitos contextos, o debate educacional tem sido capturado por palavras como inovação, tecnologia, performance, protagonismo, produtividade e resultado.
Tudo isso é importante. Mas não é suficiente.
Por isso, a pergunta continua atual e necessária: ainda precisamos de escola? E talvez uma pergunta ainda mais profunda seja: a educação ainda precisa de escola nos dias de hoje?
A minha resposta é sim. Mas não de qualquer escola.
Precisamos de uma escola que compreenda que sua função vai muito além da transmissão de conteúdo ou do treinamento de competências. Precisamos de uma escola que forme seres humanos capazes de viver em sociedade com responsabilidade, consciência, autonomia, respeito, valores e propósito.
A escola não existe para substituir a família. Também não deveria ser vista como o lugar que “resolve” aquilo que não foi construído em casa. Mas a escola também não pode se omitir diante da formação humana. Seu papel não é apenas acadêmico; é também ético, relacional, cultural e social. A formação integral de uma criança ou de um jovem depende de uma aliança real entre escola, família e sociedade.
Ao visitar diferentes países em busca de tendências e sinais do futuro da educação, percebi algo muito interessante: embora os contextos sejam diferentes, há uma convergência silenciosa entre os modelos mais inspiradores. Em todos eles, a grande questão não é apenas formar alunos competentes. É formar boas pessoas.
No Japão, por exemplo, eu esperava encontrar uma presença muito maior da tecnologia como eixo central da experiência escolar. Mas o que mais me chamou a atenção foi outra coisa: o valor dado ao “mão na massa”, à autonomia, à responsabilidade e ao compromisso com o coletivo desde a infância. Antes de formar grandes profissionais, parece haver um compromisso em formar pessoas capazes de cuidar de si, do outro e do ambiente. Isso diz muito sobre o que uma sociedade entende como essencial.
Em Singapura, a excelência acadêmica é evidente. Há intencionalidade no desenvolvimento de competências e habilidades, há rigor, há metas elevadas. Mas, ao lado disso, permanece uma convicção importante: a educação precisa formar pessoas de caráter, de princípios, com capacidade de contribuir com a sociedade. A excelência, nesse sentido, não é um fim em si mesma; ela precisa estar a serviço de algo maior.
Na Itália, especialmente nas experiências inspiradas pela abordagem de Reggio Emilia, o que se destaca é o profundo respeito à criança como sujeito. Sujeito que pensa, sente, cria, opina, interpreta e participa da construção do próprio desenvolvimento. A criança não é vista como alguém “em falta”, esperando ser preenchida pelo adulto. Ela é reconhecida como alguém potente, capaz, responsável e aprendente. Alguém que possui múltiplas formas de expressão, suas “cem linguagens”, e que precisa de contextos educativos que honrem essa riqueza.
Em Israel, encontrei experiências profundamente provocadoras: escolas no deserto, escolas na floresta, ambientes sem a configuração tradicional de salas de aula, contextos em que o desafio é parte da aprendizagem. Nesses espaços, desenvolver competências e habilidades não é apenas uma meta pedagógica, mas uma necessidade concreta de vida em comunidade. Aprende-se a enfrentar problemas reais, a cooperar, a decidir coletivamente, a transformar a realidade. E isso revela algo fundamental: a educação só faz sentido quando produz transformação social.
Essas experiências me fazem pensar que, em tempos de inteligência artificial, o papel da escola não é competir com a tecnologia. A tecnologia pode acelerar processos, ampliar acesso, personalizar percursos, apoiar diagnósticos e oferecer novas possibilidades. Mas ela não substitui aquilo que é profundamente humano: a convivência, a escuta, a mediação, o pertencimento, o conflito que ensina, a responsabilidade compartilhada, a construção de valores, o cuidado com o outro.
Se a inteligência artificial responde, a escola precisa ensinar a perguntar melhor. Se a tecnologia entrega velocidade, a escola precisa formar critério. Se o mundo exige desempenho, a escola precisa cultivar sentido. Se a sociedade premia resultados, a escola precisa lembrar que não existe futuro sustentável sem humanidade.
Por isso, a pergunta não deveria ser se a escola ainda é necessária. A pergunta certa talvez seja: que escola é necessária agora?
A escola necessária para este tempo é aquela que une excelência acadêmica e formação humana. Que desenvolve competências sem reduzir o estudante a desempenho. Que reconhece a importância da inovação, mas não se rende à superficialidade. Que valoriza o conhecimento, mas também a sensibilidade. Que prepara para o trabalho, sem esquecer a vida. Que forma para o mundo, mas também para o encontro com o outro.
Precisamos, sim, de escolas que desenvolvam altas competências e habilidades. Precisamos de estudantes capazes de criar, resolver problemas, comunicar, colaborar, liderar, empreender, pesquisar, argumentar e inovar. Mas tudo isso perde força quando não vem acompanhado de caráter, ética, autorregulação, empatia, respeito, discernimento e responsabilidade social.
No fundo, talvez o maior papel da escola hoje seja este: ajudar a formar pessoas que saibam usar tudo o que aprendem para construir um mundo melhor.
Pessoas academicamente fortes, sim. Pessoas competentes, sim. Pessoas extraordinárias, sim. Mas, acima de tudo, boas pessoas.
Porque, no fim, a educação que realmente vale a pena não é a que apenas produz performance. É a que produz humanidade.
E é por isso que, mais do que nunca, ainda precisamos de escolas.


